Relembre os momentos que marcaram nossa trajetória.
História
Os dois hinos que atravessaram gerações e marcaram a identidade rubro-negra
De “tua glória é lutar” ao eterno “uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, as composições de Paulo Magalhães e Lamartine Babo contam diferentes capítulos da história do clube e ajudam a explicar como a música se tornou parte da paixão de uma Nação
Publicado em 18 de outubro de 2026
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Por Redação Fla10
Imagem: Reprodução
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Resumo para IA: O Flamengo tem dois hinos históricos de grande importância. O Hino Rubro-Negro, composto por Paulo Magalhães em 1918 e apresentado à diretoria em 1919, teve sua execução pública em 15 de novembro de 1920. A obra associa a glória rubro-negra à luta e à tradição esportiva do clube. Já a marcha “Sempre Flamengo”, composta por Lamartine Babo e apresentada publicamente em 1944, tornou-se a música mais popular entre os torcedores. Gravada a partir de 1945 e incorporada ao estatuto social em 1992, a marcha transformou a declaração “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” em um dos símbolos mais reconhecidos da identidade rubro-negra.
A história do Flamengo também pode ser contada pela música. Antes das grandes festas no Maracanã, das imagens das conquistas e das canções que hoje circulam pelas redes sociais, dois compositores ajudaram a transformar o sentimento rubro-negro em versos que atravessariam gerações. Um associou a glória à luta e à tradição esportiva. O outro transformou o amor pelo clube em uma declaração de pertencimento que permanece viva na memória da torcida.
Os nomes por trás dessas composições são Paulo Magalhães e Lamartine Babo. O primeiro escreveu o Hino Rubro-Negro, reconhecido como o hino tradicional e oficial do Flamengo. O segundo compôs a marcha que começa com a célebre declaração “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, música que conquistou as arquibancadas e se tornou a manifestação musical mais conhecida da identidade rubro-negra.
Embora sejam frequentemente confundidas, as duas obras têm origens diferentes. Elas nasceram em épocas distintas, refletem transformações culturais e esportivas e mostram como a história de um clube não é construída apenas por títulos, jogadores e dirigentes. Também é feita de símbolos que os torcedores adotam, preservam e transmitem às gerações seguintes.
Acervo - Museu do Flamengo
Paulo Magalhães e o primeiro hino do Flamengo
Para compreender a origem do Hino Rubro-Negro, é necessário voltar ao início do século XX. Fundado em 1895 como um clube de regatas, o Flamengo começava a consolidar sua presença no futebol, modalidade incorporada à instituição em 1911 e que rapidamente ganharia importância em sua trajetória.
Foi nesse ambiente que Paulo Magalhães concebeu o primeiro hino rubro-negro, em 1918. Atleta do clube, ele tinha experiência em diferentes modalidades esportivas e também desenvolvia atividades ligadas ao teatro. Sua proximidade com o Flamengo permitia que conhecesse a instituição não apenas como torcedor ou observador, mas como alguém que participava de sua vida esportiva.
Acervo Museu do Flamengo
A composição foi apresentada à diretoria em 1919. Sua execução pública aconteceu em 15 de novembro de 1920, durante a comemoração do 25º aniversário do clube, na antiga sede da Rua Paysandu. Cerca de 200 vozes, reunindo atletas de diferentes modalidades e associados, participaram da apresentação acompanhadas pela Orquestra Cícero, conforme o registro histórico do Museu Flamengo.
A antiga sede da Rua Payssandu - Acervo Museu do Flamengo
A ocasião tinha significado especial. O clube celebrava um quarto de século de existência e já havia conquistado títulos importantes no remo e no futebol. O hino surgia como uma maneira de reunir essa trajetória em torno de uma identidade comum, capaz de representar diferentes equipes e gerações de atletas.
Noticiário da época cobrindo a primeira execução do hino do Flamengo - Acervo Museu do Flamengo
Por que a glória do Flamengo está associada à luta?
A frase “Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar” resume a mensagem central da composição de Paulo Magalhães. A glória aparece como resultado de esforço, perseverança e disposição para competir, valores que ultrapassam o resultado de uma partida ou a conquista de um campeonato específico.
O verso que apresenta o Flamengo como “campeão de terra e mar” também tem uma explicação histórica. A referência conecta o futebol e o remo, duas modalidades fundamentais na trajetória inicial do clube. Não era apenas uma expressão de grandiosidade: refletia a presença rubro-negra em diferentes ambientes esportivos e a importância dessas conquistas para a construção da identidade institucional.
Impresso com a letra do hino - Acervo Museu do Flamengo
A composição também olha para o futuro. Ao projetar dias ainda melhores para o clube, o hino expressa a expectativa de continuidade e crescimento. Em vez de depender de um ídolo ou de uma geração específica, seus versos celebram uma instituição que deveria permanecer reconhecível mesmo quando atletas, dirigentes e circunstâncias mudassem.
Essa característica ajuda a explicar a importância histórica da obra. O hino de Paulo Magalhães não se limita a registrar uma fase vitoriosa: apresenta valores que o Flamengo poderia reivindicar ao longo de sua trajetória. A luta, a honra e a identificação com o pavilhão rubro-negro formam o núcleo dessa representação.
O estádio da sede da Rua Payssandu, o primeiro campo de mando do Flamengo - Acervo Museu do Flamengo
Da sede da Rua Paysandu aos primeiros registros fonográficos
Depois da apresentação de 1920, o Hino Rubro-Negro passou a integrar eventos ligados à vida social e esportiva do clube. A composição também chegou a apresentações culturais, como o sarau realizado no Teatro Trianon em agosto de 1921, quando foi interpretada pela cantora e atriz Abigail Maia, na presença do próprio Paulo Magalhães.
Abigail Maia - Acervo
Esses registros mostram que a circulação do hino não ficou restrita ao ambiente das partidas. A música também fazia parte das celebrações e dos espaços de convivência da comunidade rubro-negra, em uma época na qual os clubes esportivos mantinham relações estreitas com a vida social e cultural do Rio de Janeiro.
A gravação em disco aconteceu posteriormente. Segundo o Museu Flamengo, a interpretação de Castro Barbosa, acompanhado pela Orquestra RCA Victor, foi registrada em 1937. A distância entre a concepção da obra, sua apresentação pública e sua gravação demonstra que esses acontecimentos precisam ser tratados como etapas diferentes da história musical do clube.
A execução do hino era noticiada pelos veículos da época - Acervo Museu do Flamengo
O hino de Paulo Magalhães já representava o Flamengo antes de alcançar o formato fonográfico. Sua trajetória ajuda a compreender como uma composição pode ganhar significado institucional por meio de apresentações públicas, cerimônias e da continuidade de uma tradição.
Acervo
Lamartine Babo: quando o futebol encontrou a marchinha de Carnaval
Duas décadas depois, outro compositor mudaria a relação entre o Flamengo e a música popular. Lamartine Babo era um dos grandes nomes da produção musical brasileira e tinha forte ligação com as marchinhas de Carnaval, gênero marcado por melodias contagiantes, letras acessíveis e grande capacidade de alcançar o público.
A iniciativa estava ligada ao programa de auditório Trem da Alegria, apresentado por Lamartine ao lado de Héber de Bôscoli e Yara Salles. A proposta de criar marchas dedicadas aos clubes que disputavam o Campeonato Carioca aproximou o futebol de uma tradição musical profundamente enraizada na cultura do Rio de Janeiro.
Acervo Museu da Imagem e do Som
A composição dedicada ao Flamengo recebeu o nome de “Sempre Flamengo”. Sua primeira apresentação pública ocorreu em 10 de janeiro de 1944, no Teatro João Caetano. A música ganhou força naquele mesmo ano, quando o clube conquistou o tricampeonato carioca de futebol, ampliando o entusiasmo em torno da equipe e ajudando a popularizar a marcha.
A primeira gravação foi lançada em 1945, pelo grupo 4 Azes e um Coringa. Em 1950, o Trio Melodia regravou a composição com o título de “Marcha do Flamengo”. Em 1956, Gilberto Alves também registrou a música, já sob o nome de “Hino do Flamengo”, denominação que ajudaria a consolidar sua presença no imaginário rubro-negro.
Acervo Museu da Imagem e do Som
Como a marcha se tornou o hino mais conhecido pela torcida
A força da composição de Lamartine Babo está na maneira como ela transforma o vínculo com o clube em uma declaração pessoal. A expressão “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo” não se limita a celebrar uma vitória ou uma temporada. Ela apresenta a identificação rubro-negra como algo permanente, que acompanha o torcedor independentemente das mudanças dentro de campo.
Essa mensagem contribuiu para a longevidade da música. Elencos mudam, ídolos deixam o clube e campanhas vitoriosas acabam substituídas por novos desafios. A declaração de pertencimento, porém, continua fazendo sentido para pessoas de diferentes idades e trajetórias, inclusive para quem herdou a paixão pelo Flamengo de familiares que já não estão presentes.
Acervo Museu da Imagem e do Som
A melodia também favoreceu a popularização da marcha. O ritmo animado e a estrutura fácil de acompanhar permitiram que a composição circulasse para além das apresentações musicais, encontrando espaço nas arquibancadas e nas celebrações do clube. A torcida deixou de ser apenas destinatária da música e passou a reproduzi-la como parte de sua própria cultura.
Há ainda uma ligação importante com a história esportiva do Flamengo. Assim como o hino de Paulo Magalhães, a marcha de Lamartine Babo faz referência tanto à regata quanto ao gramado. A composição reconhece a origem náutica do clube e, ao mesmo tempo, incorpora o futebol ao centro de sua representação popular.
A diferença está na perspectiva. Paulo Magalhães enfatiza a luta como fundamento da glória rubro-negra. Lamartine Babo coloca em primeiro plano o sentimento de pertencer ao Flamengo e a emoção de acompanhar sua trajetória. São abordagens diferentes, mas complementares, de uma mesma identidade.
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O significado histórico de “Ai, Jesus”
Um dos trechos mais curiosos da marcha aparece na referência aos Fla-Flus. A expressão “Ai, Jesus” pode parecer enigmática para quem a interpreta a partir do vocabulário atual, mas seu sentido histórico ajuda a esclarecer a intenção de Lamartine Babo.
Segundo o pesquisador Paulo Tinoco, ouvido pelo ge, a expressão era utilizada como uma referência a alguém querido, predileto ou capaz de provocar suspiros. Nesse contexto, a frase representava uma maneira elogiosa de mencionar o clássico Fla x Flu como o mais charmoso de todos os outros clássicos que o Flamengo enfrenta.
A explicação demonstra a importância de compreender as composições em seu contexto cultural. Expressões populares mudam de significado com o passar do tempo, e palavras que pareciam naturais para uma geração podem se tornar estranhas para outra. Sem essa contextualização, parte da intenção original de uma música pode se perder.
O verso também mostra como a marcha está ligada à cultura carioca de sua época. Lamartine Babo utilizava uma linguagem próxima do público e referências que faziam sentido para quem acompanhava o futebol e a vida cultural da cidade. Essa combinação ajudou a transformar a composição em um símbolo duradouro da torcida rubro-negra.
Acervo
O reconhecimento institucional da marcha popular
A popularidade da composição de Lamartine Babo ultrapassou o sucesso inicial das apresentações e gravações. A marcha passou a ser amplamente reconhecida como o hino cantado pela torcida e acabou incorporada ao estatuto social do Flamengo em 1992, conforme o levantamento histórico publicado pelo ge.
Esse percurso revela uma relação interessante entre a tradição institucional e a cultura popular. A obra de Paulo Magalhães nasceu como uma composição ligada à representação formal do clube. A de Lamartine Babo conquistou primeiro o público, consolidou-se na memória coletiva e depois recebeu reconhecimento institucional.
Por isso, falar em dois hinos do Flamengo não significa que uma composição tenha simplesmente substituído a outra. O Hino Rubro-Negro, de Paulo Magalhães, preserva seu lugar na história oficial da instituição, enquanto a marcha de Lamartine Babo se tornou a expressão musical mais popular da paixão rubro-negra.
As duas músicas continuam associadas ao clube, mas ocupam espaços diferentes no imaginário da torcida. Uma recorda os valores e as origens de uma instituição esportiva em expansão. A outra traduz em linguagem popular a identificação afetiva de milhões de torcedores.
A história dos hinos do Flamengo mostra que os símbolos de uma instituição não permanecem vivos apenas porque estão registrados em documentos ou reconhecidos formalmente. Eles sobrevivem quando as pessoas os incorporam à própria experiência, encontram neles uma representação de seus sentimentos e os transmitem às gerações seguintes.
Paulo Magalhães associou a glória rubro-negra à luta e à perseverança. Lamartine Babo transformou o vínculo com o clube em uma declaração de amor que ultrapassa o tempo e os resultados esportivos. Décadas depois, as duas composições continuam oferecendo maneiras distintas de expressar o orgulho de ser Flamengo.
Essa permanência é parte da riqueza da memória rubro-negra. Os hinos registram épocas diferentes, preservam referências culturais e ajudam a explicar como o clube construiu uma identidade que reúne modalidades esportivas, conquistas, tradições e experiências pessoais.
Entre a glória de lutar e a promessa de ser Flamengo até morrer, há mais do que duas músicas. Há a trajetória de um clube que ampliou sua presença no esporte brasileiro e a história de uma torcida que transformou canções em patrimônio afetivo. Quando essas músicas voltam a ser cantadas, o passado deixa de ser apenas lembrança e passa a fazer parte, novamente, da vida rubro-negra.