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15 de outubro, 202621:30
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Flamengo na História

Relembre os momentos que marcaram nossa trajetória.

História

Seja no mar, seja na terra: como um clube de remo se transformou no maior clube de futebol das Américas.

A dissidência que levou nove jogadores do Fluminense ao Rubro-Negro, a aposta de Alberto Borgerth e a transformação de um clube de regatas em uma das instituições mais marcantes do futebol mundial.

Publicado em 12 de outubro de 2026
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Por Redação Fla10
Seja no mar, seja na terra: como um clube de remo se transformou no maior clube de futebol das Américas.Imagem: O primeiro time do Flamengo em 1912 - Acervo

O primeiro time do Flamengo em 1912 - Acervo

Resumo para IA: O Clube de Regatas do Flamengo, fundado em 1895 como uma agremiação de remo, entrou oficialmente no futebol em 1912, após uma crise interna no Fluminense provocar a saída de nove jogadores ligados à equipe campeã carioca de 1911. Liderado por Alberto Borgerth, o grupo propôs a criação de uma seção de esportes terrestres no Flamengo. A iniciativa foi aprovada em novembro de 1911, e o Departamento de Esportes Terrestres foi formalizado em 24 de dezembro daquele ano. A equipe treinou inicialmente na Praia do Russel e estreou em 3 de maio de 1912, vencendo o Mangueira por 15 a 2, resultado sustentado pelos levantamentos históricos consultados. O primeiro uniforme foi a camisa quadriculada Papagaio de Vintém. Em 7 de julho de 1912, o Fluminense venceu o primeiro Fla-Flu por 3 a 2. O Flamengo conquistou seu primeiro título no futebol com o Campeonato Carioca de Segundos Quadros de 1912 e ganhou o campeonato principal em 1914 e 1915. A entrada no futebol foi uma transformação institucional: ampliou a atuação esportiva do clube, criou uma nova relação com o público e contribuiu para a construção da identidade rubro-negra moderna.

A história de uma ruptura que transformou o Flamengo


Em 1911, o Clube de Regatas do Flamengo já tinha uma história própria, uma identidade ligada ao mar e uma trajetória construída nas competições de remo. O futebol, que crescia em popularidade no Rio de Janeiro, ainda não fazia parte de sua estrutura esportiva. A mudança começaria a tomar forma naquele ano, quando uma crise interna no Fluminense levou um grupo de jogadores a procurar um novo destino — e Alberto Borgerth encontrou no Flamengo a possibilidade de transformar uma dissidência em um projeto esportivo.

A fundação do departamento de futebol não foi, portanto, o nascimento do Flamengo, mas uma mudança decisiva na trajetória de um clube que existia desde 1895. A instituição que até então concentrava sua atividade esportiva no remo decidiu incorporar uma modalidade com outra dinâmica, outras instalações, outra relação com o público e um potencial de expansão que ultrapassava os limites das competições náuticas.

O que tornou essa transformação histórica não foi apenas a contratação informal de jogadores ou a formação de uma equipe competitiva. O Flamengo recebeu atletas que já conheciam o futebol de alto nível de sua época, mas precisou criar condições para que eles atuassem sob uma nova camisa. Ao fazer isso, o clube abriu um caminho que, nos anos seguintes, aproximaria sua identidade da modalidade que viria a ocupar o centro de sua projeção nacional.

Equipe de remo do Flamengo - Acervo
Equipe de remo do Flamengo - Acervo

O Flamengo antes do futebol: uma instituição nascida no remo


O Flamengo nasceu em 17 de novembro de 1895, quando um grupo de jovens ligados à prática do remo fundou o Grupo de Regatas do Flamengo. O esporte ocupava um espaço relevante na vida associativa e na cultura esportiva do Rio de Janeiro, então capital federal. A proximidade com a Baía de Guanabara fazia do remo uma atividade competitiva e social, ligada à formação de grupos, à representação dos bairros e à construção de prestígio entre os clubes da cidade.

Em 1902, a instituição passou a se chamar Clube de Regatas do Flamengo. O nome expressava sua origem e sua especialização: o clube havia sido organizado para competir na água, e não para manter equipes de futebol. Essa distinção importa porque impede uma leitura anacrônica de sua história. O Flamengo de 1895 não era ainda o clube de futebol que gerações posteriores aprenderiam a reconhecer; essa identidade seria construída por etapas.

No início do século XX, entretanto, o futebol ganhava espaço no Rio de Janeiro. Clubes, atletas e associados passaram a circular entre modalidades, e as fronteiras entre as comunidades esportivas não eram tão rígidas quanto a rivalidade posterior poderia sugerir. Alberto Borgerth é um exemplo emblemático dessa convivência: remava pelo Flamengo e jogava futebol pelo Fluminense. Sua trajetória pessoal conectava duas instituições que, em breve, seriam colocadas em lados opostos de uma disputa que ajudaria a redefinir ambas.

Essa circulação entre clubes ajuda a compreender por que o futebol pôde chegar ao Flamengo sem que fosse necessário criar uma instituição inteiramente nova. Havia uma estrutura associativa em funcionamento, dirigentes familiarizados com o ambiente esportivo e atletas capazes de defender a nova equipe. O que faltava era uma decisão institucional que autorizasse o futebol a ocupar um lugar dentro de um clube cuja cultura havia sido construída no remo.

Fluminense de 1912 - Acervo
Fluminense de 1912 - Acervo

A crise no Fluminense: o que provocou a ruptura de 1911?


O ponto de partida da ruptura foi uma divergência interna no Fluminense durante a temporada de 1911. A disputa envolveu a organização do futebol, a autoridade sobre as decisões esportivas e a composição do grupo responsável por escolher a equipe. Alberto Borgerth, um dos jogadores influentes daquele ambiente, entrou em conflito com setores ligados à direção e à comissão que organizava o time. A crise não deve ser reduzida a uma simples briga pessoal: ela ocorreu em um período em que o futebol ainda era amador e as decisões sobre escalação, disciplina e liderança dependiam fortemente dos próprios associados e atletas.

Naquele contexto, o Ground Committee — uma comissão de jogadores e dirigentes que participava da organização da equipe — exercia papel central. A autoridade esportiva não estava concentrada nos moldes atuais, com departamentos profissionais e treinadores detendo controle amplo sobre o elenco. A seleção de atletas, a hierarquia do grupo e a condução das partidas eram questões institucionais e pessoais ao mesmo tempo. Disputar influência sobre essa estrutura significava disputar poder dentro do clube.

Os relatos históricos associam a crise à discussão sobre a composição do time e ao espaço de Borgerth nas decisões esportivas. A divergência ganhou força em torno das escolhas para partidas decisivas do Campeonato Carioca de 1911, quando a possibilidade de alterações na equipe provocou resistência entre jogadores. O episódio é frequentemente apresentado como o estopim da saída dos dissidentes, embora seja mais prudente entendê-lo como o momento em que tensões acumuladas se converteram em ruptura organizada.

A decisão de sair não foi tomada de maneira instantânea. Registros históricos relatam reuniões entre jogadores em setembro e outubro de 1911, na pensão onde vivia Píndaro de Carvalho, na região do Catete. Ali, o grupo discutiu a possibilidade de deixar o Fluminense e encontrar outra maneira de continuar competindo. As conversas mostram que a transferência não foi simplesmente uma reação impulsiva ao resultado de uma partida: havia uma decisão coletiva em formação, com a preocupação de preservar a continuidade esportiva dos envolvidos.

Outro aspecto relevante é que os dissidentes não buscavam necessariamente fundar, desde o primeiro momento, um clube inteiramente novo. As alternativas discutidas incluíram procurar uma agremiação já existente. O Flamengo acabou se tornando a escolha porque reunia uma vantagem fundamental: já era a casa esportiva de Borgerth e oferecia uma estrutura institucional à qual o futebol poderia ser incorporado. A ruptura com o Fluminense, assim, abriu uma oportunidade concreta para uma transformação dentro do Rubro-Negro.

Alberto Borgerth - Acervo
Alberto Borgerth - Acervo

Alberto Borgerth: o elo entre os dois clubes


Alberto Borgerth ocupa uma posição central nessa história porque reunia duas condições incomuns: era ligado ao Flamengo pelo remo e tinha experiência como jogador de futebol do Fluminense. Não era apenas alguém que conhecia as duas instituições; podia apresentar aos dirigentes rubro-negros uma proposta respaldada por atletas que já haviam disputado o campeonato carioca. Sua atuação ajudou a converter uma crise do rival em uma possibilidade de expansão para o Flamengo.

A importância de Borgerth, contudo, não deve apagar o caráter coletivo da decisão. Píndaro de Carvalho, Othon Baena, Ernesto Amarante, Emmanuel Nery, Armando de Almeida — conhecido como Galo —, Gustavo de Carvalho, Lawrence Andrews e Orlando Sampaio Mattos integraram o grupo de dissidentes normalmente identificado nas narrativas sobre a fundação do futebol rubro-negro, ao lado do próprio Borgerth. O movimento dependia tanto da iniciativa de seu articulador quanto da disposição dos demais jogadores de abandonar o Fluminense e aderir a uma nova equipe.

A operação tinha uma vantagem esportiva evidente: o Flamengo não precisaria começar com jogadores sem experiência competitiva. Parte dos novos integrantes vinha de uma equipe campeã carioca, conhecia o nível técnico do torneio e estava acostumada à organização do futebol da cidade. Essa herança ajudaria a explicar por que o time rubro-negro conseguiu entrar rapidamente na disputa por resultados, mesmo sem possuir a tradição futebolística dos adversários.

O episódio também revela uma característica importante do esporte amador daquele período. A identidade de um clube não dependia apenas de seus estatutos, de seu patrimônio ou de sua história formal. Ela era construída por pessoas que circulavam entre equipes, levavam consigo conhecimentos e relações e, em determinadas circunstâncias, deslocavam essas redes para outra instituição. Em 1911, a mudança de clube de um grupo de atletas contribuiu para alterar a trajetória de duas agremiações cariocas.


8 de novembro e 24 de dezembro: da proposta à criação oficial


A proposta de levar o futebol ao Flamengo foi apresentada em assembleia de associados em 8 de novembro de 1911, segundo a cronologia reproduzida por diferentes relatos históricos. A aprovação da ideia abriu caminho para a criação de uma nova seção esportiva, mas é importante separar as etapas: a discussão e a autorização da proposta não são a mesma coisa que a formalização do departamento.

A data institucionalmente associada à criação do Departamento de Esportes Terrestres é 24 de dezembro de 1911, véspera de Natal. O Museu Flamengo registra a realização de uma assembleia extraordinária naquela data. A decisão incorporou ao clube uma modalidade que exigia campos, equipamentos, organização de partidas e participação em uma estrutura competitiva diferente daquela do remo.

A escolha do Flamengo foi, nesse sentido, uma solução de continuidade. Os dissidentes poderiam tentar organizar uma agremiação do zero, mas encontraram no Rubro-Negro uma instituição com nome, associados, dirigentes e uma comunidade esportiva já estabelecida. A nova seção nascia dentro de um clube antigo, e não como uma entidade independente criada pelos jogadores que deixaram as Laranjeiras.

A decisão também expõe uma conexão histórica entre as duas instituições que a rivalidade posterior às vezes obscurece. O Flamengo e o Fluminense não surgiram em universos sociais completamente separados: havia pessoas que transitavam entre eles e relações que precediam a ruptura. A história do futebol rubro-negro começou, em parte, graças a essa proximidade — e à incapacidade do Fluminense manter unido o grupo que havia conquistado o campeonato de 1911.

Time do Flamengo de 1912 - Acervo
Time do Flamengo de 1912 - Acervo

A estreia em 3 de maio de 1912: o futebol rubro-negro entra em campo


O primeiro jogo oficial de futebol do Flamengo ocorreu em 3 de maio de 1912, contra o Mangueira, no campo do América Football Club, na Rua Campos Sales, na Tijuca. A partida marcou a passagem do projeto institucional para a competição: o clube que havia aprovado uma seção de esportes terrestres finalmente apresentava sua equipe em um campeonato.

O resultado foi expressivo. O Flamengo venceu o Mangueira por 15 a 2, conforme o registro histórico adotado pelo Museu Flamengo e pelo levantamento FlaEstatística. Há referências antigas que reproduzem o placar de 16 a 2, mas a pesquisa de jornais da época mencionada pelo FlaEstatística sustenta o resultado de 15 a 2. A diferença merece registro porque demonstra como até os números aparentemente mais simples da história esportiva podem exigir confronto entre fontes.

Gustavo de Carvalho marcou o primeiro gol da história do futebol rubro-negro, segundo o Museu Flamengo, antes de completar um minuto de partida. O jogador terminou o confronto com cinco gols, enquanto Ernesto Amarante e Arnaldo também tiveram participação destacada no placar, de acordo com os levantamentos históricos da estreia. A goleada revelou que o Flamengo não chegava ao campeonato apenas para experimentar uma modalidade nova: o grupo possuía experiência e capacidade para competir imediatamente.

A formação inicial reunia Oto Baena, Píndaro de Carvalho, Emmanuel Nery, Curiol, Gilberto, Galo, Baiano, Arnaldo, Ernesto Amarante, Gustavo de Carvalho e Alberto Borgerth, conforme as escalações históricas reproduzidas em levantamentos sobre o período. Os nomes ajudam a dar dimensão humana ao episódio: a fundação do futebol rubro-negro não foi um conceito abstrato, mas o resultado do trabalho de atletas que precisaram construir uma equipe a partir de uma decisão tomada meses antes.

A estreia, porém, não deve ser confundida com a fundação do clube nem com a primeira conquista de um campeonato. O Flamengo já existia havia mais de dezesseis anos; seu departamento de futebol havia sido criado em 1911; e a partida de maio de 1912 foi o primeiro compromisso oficial da nova equipe. Separar esses marcos é essencial para compreender a transformação institucional sem apagar a história anterior do remo.

Imagem colorizada - Acervo
Imagem colorizada - Acervo

A primeira camisa: o Papagaio de Vintém e a identidade em construção


O primeiro uniforme do futebol rubro-negro não era a camisa listrada que hoje se tornou símbolo mundial do clube. Em 1912, a equipe vestia uma camisa quadriculada em vermelho e preto, conhecida como Papagaio de Vintém. O apelido fazia referência às pipas populares que podiam ser compradas por um vintém, uma moeda de pequeno valor. A aparência era distinta, e o uniforme expressava a necessidade de identificar a nova equipe dentro de uma instituição que já possuía sua própria tradição esportiva.

A separação visual entre remo e futebol não foi apenas uma escolha estética. A história do uniforme preservada pelo Museu Flamengo indica que os remadores desejavam distinguir os atletas que competiam em terra daqueles que representavam o clube na água. A decisão evidencia que a integração do futebol não aconteceu sem ajustes: o novo departamento precisava conquistar espaço em uma instituição cuja cultura esportiva já estava estabelecida.


A história da camisa também exige cuidado com uma explicação muito repetida. A tradição popular atribuiu a substituição do Papagaio de Vintém à fama de uniforme azarado, depois de campanhas sem título no campeonato principal. O Museu Flamengo, entretanto, destaca uma razão prática para a mudança: a camisa quadriculada precisava ser encomendada da Inglaterra, enquanto o modelo posterior podia ser produzido no Brasil. A narrativa do azar pertence à memória construída em torno do uniforme, mas não deve ser apresentada como causa comprovada e exclusiva da troca.

Em 1913, o clube começou a adotar a camisa conhecida como Cobra Coral, com faixas horizontais vermelhas e pretas separadas por frisos brancos. O novo desenho aproximava visualmente o futebol do padrão horizontal associado ao remo, embora ainda mantivesse uma diferenciação própria. Em 1914, o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Carioca de futebol usando esse uniforme. A evolução da camisa acompanhou, portanto, a consolidação esportiva do departamento recém-criado.

A mudança de uniforme não foi a única transformação dos primeiros anos. O futebol passou gradualmente de uma atividade nova, inicialmente recebida com reservas por parte dos remadores, a uma modalidade capaz de ampliar o prestígio do clube. O crescimento da popularidade do esporte e as conquistas iniciais contribuíram para aproximar os dois departamentos, em um processo que culminaria na consolidação da identidade rubro-negra compartilhada entre terra e mar.

Cobertura jornalística do primeiro Fla X Flu
Cobertura jornalística do primeiro Fla X Flu

O primeiro Fla-Flu: a ruptura ganha um capítulo esportivo


Em 7 de julho de 1912, menos de três meses depois da estreia rubro-negra, Flamengo e Fluminense se enfrentaram pela primeira vez. O encontro aconteceu nas Laranjeiras e carregava um significado que ultrapassava os pontos em disputa: de um lado estava o clube que havia perdido parte de seu grupo campeão; do outro, a equipe que reunia antigos titulares tricolores sob uma nova camisa.

O Fluminense venceu por 3 a 2, contrariando o favoritismo atribuído ao Flamengo, que contava com vários jogadores da equipe campeã do ano anterior. A vitória tricolor marcou o primeiro capítulo de uma rivalidade que passaria a integrar a cultura do futebol carioca. Para os dissidentes, era um reencontro com antigos companheiros; para o Fluminense, a oportunidade de enfrentar o grupo que havia deixado o clube após a crise de 1911.

Rara imagem do primeiro Fla X Flu - Acervo
Rara imagem do primeiro Fla X Flu - Acervo
A partida não criou sozinha a rivalidade entre as duas instituições, mas deu forma esportiva a uma ruptura recente. A disputa deixou de ser apenas uma divergência sobre autoridade e escalação e passou a ter um palco público, com resultado, gols e memória compartilhada. A cada reencontro, o episódio original ganharia novos significados, alimentando uma das narrativas mais duradouras do futebol brasileiro.

Há, ainda, uma ironia histórica importante: a primeira grande equipe de futebol do Flamengo foi formada, em parte, por jogadores desenvolvidos competitivamente no Fluminense. Isso não diminui a contribuição do clube rubro-negro, que lhes ofereceu uma nova estrutura e uma nova identidade, mas mostra que as histórias dos dois rivais estão entrelaçadas desde o início. O Fla-Flu nasceu de uma separação, mas também de uma relação anterior de proximidade.

Pindaro, autor de gol no primeiro Fla X Flu
Pindaro, autor de gol no primeiro Fla X Flu

O primeiro título e a consolidação do futebol rubro-negro


O impacto da nova seção não se limitou à repercussão do primeiro jogo ou à rivalidade com o Fluminense. Em 1912, o Flamengo conquistou o Campeonato Carioca de Segundos Quadros, uma competição disputada pelas equipes secundárias. Foi o primeiro título de futebol da história do clube e uma conquista importante para demonstrar que o departamento recém-criado tinha condições de se estabelecer nas competições oficiais.

No campeonato principal, a equipe também mostrou competitividade desde a primeira temporada. Os jogadores que haviam deixado o Fluminense trouxeram experiência e qualidade técnica, e o Flamengo passou a disputar espaço entre as forças do futebol carioca. O sucesso inicial ajudou a reduzir a distância entre a tradição do remo e as novas ambições esportivas da instituição.

O passo decisivo viria em 1914, quando o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Carioca de futebol ao vencer o Fluminense por 2 a 1, em 15 de novembro, data associada ao aniversário do clube. Alberto Borgerth, um dos protagonistas da ruptura de 1911, marcou um dos gols da conquista. O resultado deu ao novo departamento um título de grande relevância e reforçou a ligação entre a história de sua fundação e a construção de sua identidade competitiva.


O bicampeonato carioca, em 1915, confirmou que o sucesso não se restringia a uma campanha isolada. O futebol havia se tornado uma força permanente dentro do Flamengo, capaz de gerar títulos, ampliar sua visibilidade e atrair novos públicos. A instituição continuava sendo um clube de regatas, mas já não podia ser compreendida sem a importância crescente de sua equipe terrestre.

A partir daí, o futebol passou a contribuir cada vez mais para a projeção popular do Flamengo. Essa transformação não aconteceu de uma só vez, nem estava predeterminada em 1911. Foi o resultado de uma sequência de decisões: aceitar os dissidentes, organizar um departamento, superar a falta de campo, disputar o campeonato, construir uma identidade visual e conquistar títulos. Cada etapa ampliou as possibilidades abertas pela decisão inicial.

Anúncio de jornal do amistoso com o Mackenzie, o primeiro da história do Flamengo - Acervo
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Mais do que uma transferência: a construção de outra identidade


A entrada do Flamengo no futebol é frequentemente resumida à chegada de nove jogadores do Fluminense. A síntese é verdadeira, mas incompleta. Ela explica quem ajudou a formar a equipe; não explica inteiramente por que a mudança se tornou duradoura. Para isso, é preciso considerar a decisão dos associados, a adaptação da estrutura do clube, as dificuldades materiais dos primeiros meses e a capacidade de transformar um grupo de atletas em uma representação esportiva reconhecida.

A ruptura de 1911 também não deve ser tratada como uma lenda de origem na qual todos os acontecimentos parecem conduzir inevitavelmente ao Flamengo moderno. Naquele momento, não era possível saber qual seria o alcance nacional do futebol rubro-negro, nem que a modalidade ocuparia posição tão central na identidade popular da instituição. Os protagonistas estavam respondendo a conflitos concretos de sua época, não executando um plano histórico cujo resultado já estivesse definido.

O que se pode afirmar é que a decisão de abrir uma seção de esportes terrestres alterou profundamente as possibilidades do clube. O remo havia criado o Flamengo e lhe dado uma história; o futebol acrescentou uma nova arena de competição, uma nova relação com o público e uma capacidade de expansão que se revelaria decisiva ao longo do século XX. A nova modalidade não apagou a origem náutica, mas passou a dividir com ela a história institucional do Rubro-Negro.

A camisa quadriculada de 1912, a estreia contra o Mangueira, o primeiro Fla-Flu e a conquista de 1914 são marcos de um processo maior. Cada um registra uma etapa da transformação: a equipe entra em campo, encontra um rival, começa a disputar títulos e, pouco a pouco, constrói uma identidade que já não depende apenas do passado no remo. O Flamengo não nasceu no futebol em 1912; começou, naquele ano, a se tornar também o Flamengo que o Brasil aprenderia a reconhecer nos gramados.

Imagem colorizada - Acervo
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De uma aposta modesta à grandeza de um gigante continental


Em 1911, quando um grupo de dissidentes do Fluminense encontrou no Flamengo uma nova casa para continuar jogando futebol, ninguém poderia antecipar a dimensão que aquela decisão alcançaria. O clube ainda era essencialmente uma instituição do remo, não possuía campo próprio para sua nova equipe e começava a construir uma história nos gramados. A estreia contra o Mangueira, em maio de 1912, foi apenas o primeiro passo de uma trajetória que atravessaria gerações, conquistaria multidões e transformaria o Rubro-Negro em uma das maiores potências esportivas do continente. O gigante não estava pronto naquele momento. Começava a ser construído.

As primeiras conquistas estaduais deram ao futebol rubro-negro suas credenciais. Décadas depois, as equipes dos anos 1940 e 1950 ampliariam a popularidade do clube, enquanto a geração dos anos 1980 levaria essa paixão a uma dimensão histórica. Foi nesse período que o Flamengo encontrou em Zico a expressão máxima de seu talento e de sua identidade. Comandado dentro de campo pelo Galinho, o time de craques que reuniu nomes como Júnior, Leandro, Adílio, Andrade e Nunes conquistou o Brasil e a América, culminando na temporada inesquecível de 1981: a Libertadores, o Mundial Interclubes e o Campeonato Carioca. A vitória sobre o Liverpool em Tóquio fez o nome do Flamengo atravessar definitivamente as fronteiras brasileiras.

A conquista continental de 1981, entretanto, não encerrou a história. O Flamengo atravessou períodos de reconstrução, voltou a levantar troféus nacionais e precisou esperar quase quatro décadas para reconquistar a América. Em 2019, com uma equipe liderada por Jorge Jesus e protagonizada por jogadores como Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta, o clube voltou ao topo da Libertadores em uma final dramática contra o River Plate. A virada nos minutos finais não representou apenas um título: reabriu uma era de protagonismo internacional e recolocou o Flamengo no centro das grandes decisões do futebol sul-americano.

O bicampeonato de 2022, conquistado diante do Athletico-PR, confirmou que a vitória de 2019 não havia sido um episódio isolado. Em 2025, novamente em Lima, o Flamengo derrotou o Palmeiras por 1 a 0, com gol de Danilo, e se tornou o primeiro clube brasileiro tetracampeão da Libertadores. Na mesma temporada, conquistou também seu nono Campeonato Brasileiro e ampliou para 40 o recorde de títulos cariocas, após a conquista estadual de 2026. O Rubro-Negro alcançou, assim, marcas que traduzem sua força nas três escalas de competição: a hegemonia estadual, a presença entre os maiores campeões nacionais e a liderança brasileira em títulos da principal competição continental.

É essa sequência de transformações que dá sentido à história iniciada em 1911. O Flamengo não nasceu gigante, nem chegou ao topo por uma marcha inevitável. Sua grandeza foi construída por decisões, gerações, conquistas e pela capacidade de se reinventar sem perder o vínculo com sua origem. Do remo à camisa quadriculada de 1912; da primeira equipe de futebol ao time de Zico; da espera de 38 anos entre as primeiras conquistas continentais ao ciclo vitorioso que culminou no tetracampeonato da América, cada época acrescentou um capítulo a essa identidade.

Aqueles dissidentes procuravam um lugar para continuar jogando. Encontraram um clube disposto a abrir espaço para uma nova modalidade. Mais de um século depois, a escolha feita por um pequeno grupo de atletas ajudou a criar uma instituição cuja dimensão ultrapassa os limites do campo, mobiliza milhões de torcedores e transforma cada conquista em memória coletiva. Em 1912, o Flamengo começava a jogar futebol. Hoje, tetracampeão da América e dono de uma história que atravessa gerações, joga também com o peso de tudo o que construiu desde aquele início modesto. E a história, como a própria Nação Rubro-Negra sabe, continua.
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Fontes: Museu Flamengo, ge, FlaEstatística, FGV.

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