Como joga o Independiente del Valle e o que o Flamengo precisa fazer para chegar à semifinal
Acompanhe todos os detalhes desta análise do Flamengo hoje, informações exclusivas e fique por dentro das últimas contratações do Flamengo.
Imagem: Arte - Fla10Duelo contra o Tolima revelou um Independiente del Valle capaz de alternar posse, pressão e transição; para Leonardo Jardim, o desafio será atacar os espaços sem oferecer ao adversário aquilo que ele mais gosta
O Independiente del Valle é oficialmente o próximo adversário do Flamengo na Libertadores.
E, antes de pensar no tamanho da altitude, no histórico do clube equatoriano ou no peso de uma quartas de final, existe uma pergunta mais importante:
Como o Independiente del Valle joga?
A resposta apareceu de maneira bastante clara nos 180 minutos contra o Tolima.
O time comandado por Joaquín Papa eliminou os colombianos com duas vitórias — 1 a 0 em Ibagué e 3 a 1 em Quito —, mas apresentou comportamentos diferentes de acordo com o contexto.
Essa capacidade de adaptação é justamente o que torna o confronto interessante do ponto de vista tático.
O ponto de partida: 4-2-3-1
O Independiente del Valle utiliza como estrutura-base um 4-2-3-1, embora o desenho se transforme durante as fases do jogo.
Contra o Tolima, a equipe começou com Aldair Quintana no gol; Layan Loor, Richard Schunke, Mateo Carabajal e Daykol Romero na defesa; Jordy Alcívar e Hugo Quintana na base do meio; Sornoza centralizado, com Emerson Pata e Arón Rodríguez pelos lados; e Carlos González como referência.
O sistema, porém, não deve ser interpretado como quatro defensores, dois volantes, três meias e um atacante imóveis.
Com a bola, os laterais avançam, Sornoza procura espaços entre linhas, os pontas podem fechar por dentro ou atacar a profundidade, González se movimenta para criar espaços e um dos volantes pode avançar para aproximar-se do ataque.
O desenho se transforma conforme a jogada.
O primeiro alerta: não confundir posse com controle
O primeiro jogo contra o Tolima é talvez a melhor demonstração disso.
O time colombiano teve 68% da posse de bola. Mesmo assim, perdeu por 1 a 0.
O Del Valle teve uma das suas menores posses históricas em jogos da Libertadores, mas conseguiu controlar aquilo que realmente importava: as zonas perigosas e as oportunidades do adversário.
Essa é uma informação fundamental para Leonardo Jardim.
O Flamengo não pode entrar na eliminatória pensando que ter 60% ou 65% da posse automaticamente significa dominar o jogo.
O Del Valle mostrou que consegue defender em bloco, esperar o erro e atacar rapidamente.
O Flamengo precisa evitar a armadilha da posse estéril
O modelo de Jardim tem uma característica que pode ser extremamente útil contra o Del Valle: a capacidade de controlar o jogo através da posse.
Contra o Cruzeiro, o Flamengo teve um primeiro tempo dominante no Maracanã. Chegou a 70% de posse, finalizou 12 vezes contra três e criou três chances claras antes do intervalo. Jorginho comandou a construção, enquanto Pedro saía da área para participar da criação.
Esse comportamento pode funcionar contra o Del Valle.
Mas existe uma diferença:
O Flamengo precisará circular a bola com propósito. Se ficar trocando passes horizontalmente, poderá permitir que o Del Valle se reorganize.
O objetivo precisa ser deslocar a estrutura equatoriana até aparecer o espaço para atacar.
O duelo Jorginho/Pulgar x Alcívar/Sornoza
Este pode ser o principal duelo tático da eliminatória.
De um lado, Leonardo Jardim possui Jorginho e Pulgar, do outro, Joaquín Papa tem Jordy Alcívar e Junior Sornoza.
São jogadores com funções diferentes.
Jorginho pode comandar a saída, dar ritmo e encontrar os espaços entre as linhas.
Pulgar oferece proteção e capacidade de recuperar a segunda bola. Alcívar é o equilíbrio do Del Valle.
Sornoza é quem precisa receber mais próximo do ataque.
Portanto, uma das missões do Flamengo deve ser impedir que Sornoza receba de frente para a defesa.
Se o camisa 10 equatoriano receber livre entre o meio e a zaga, González começará a receber bolas em condições muito mais perigosas.
O Flamengo precisa pressionar Sornoza, não perseguir Sornoza
Existe uma diferença importante.
O Flamengo não deve colocar um jogador individualmente para perseguir o camisa 10 por todo o campo.
Isso poderia abrir outros espaços.
O ideal é fechar as linhas de passe que permitem que Sornoza receba.
Pedro pode orientar a saída. Arrascaeta e os pontas podem fechar os corredores interiores. Jorginho e Pulgar precisam controlar a zona central.
A defesa deve manter distância curta.
O objetivo é simples:
Sornoza pode até se movimentar. O que não pode é receber com tempo e espaço para virar o jogo.
O grande perigo está nos corredores
Aqui está provavelmente o ponto mais importante da análise.
O Independiente del Valle é muito perigoso pelos lados.
O próprio treinador do Tolima, Sebastián Oliveros, descreveu a equipe equatoriana como um time de estrutura 4-3-3, com jogadores desequilibrantes pelos lados, laterais que avançam constantemente e uma defesa que pressiona em zona.
Além disso, a estatística da Conmebol é contundente: metade dos gols do Del Valle na Libertadores veio de assistências em cruzamentos.
Isso significa que o Flamengo precisa defender o corredor antes que a bola chegue ao cruzador.
Não basta defender bem dentro da área.
É necessário impedir o cruzamento.
Samuel Lino pode ser uma arma importante
O mesmo princípio vale para o Flamengo.
Se os laterais do Del Valle avançam muito, existe espaço atrás deles.
Samuel Lino é exatamente o tipo de jogador que pode explorar esse espaço.
Com velocidade e capacidade de condução, ele pode obrigar o lateral equatoriano a escolher:
Avançar e deixar espaço nas costas ou permanecer mais baixo e reduzir a força ofensiva do time.
Esse é um duelo que Jardim precisa explorar.
Pedro pode repetir a função que funcionou contra o Cruzeiro
Existe outra possibilidade interessante.
Contra o Cruzeiro, Pedro saiu diversas vezes da área para participar da construção do jogo.
A movimentação criou espaços para Arrascaeta atacar e foi fundamental nos dois gols da classificação. O centroavante deu as duas assistências da vitória por 2 a 1.
Contra o Del Valle, essa movimentação pode ser ainda mais importante.
Se Pedro sair da área, um dos zagueiros terá de decidir se o acompanha.
Se acompanhar, abre espaço. Se não acompanhar, Pedro pode receber entre linhas.
E é nesse momento que Arrascaeta, Samuel Lino ou outro jogador de frente precisa atacar o espaço criado.
O Flamengo precisa atacar a defesa do Del Valle em movimento
Atacar uma linha defensiva estática é uma coisa.
Atacar uma defesa que está se deslocando é outra.
O Flamengo precisa fazer o Del Valle correr de um lado para o outro.
Trocas de posição entre Arrascaeta, Pedro e Samuel Lino podem ser importantes. Carrascal também pode ser utilizado para aumentar a mobilidade.
O objetivo não deve ser apenas encontrar o último passe. Deve ser desorganizar a estrutura antes do último passe.
O problema da transição defensiva
Aqui está o principal cuidado de Leonardo Jardim.
O Del Valle mostrou contra o Tolima que sabe esperar o momento para atacar.
No segundo gol da partida de volta, Daykol Romero recuperou a bola e lançou Carlos González nas costas da defesa.
O atacante recebeu em velocidade e marcou.
É exatamente esse tipo de jogada que o Flamengo precisa evitar.
Se os dois laterais estiverem simultaneamente avançados, Jorginho e Pulgar precisam garantir proteção.
Se o Flamengo perder a bola no corredor central, a reação precisa ser imediata.
E, principalmente, os zagueiros não podem ficar expostos a González em campo aberto.
O Flamengo não pode atacar com seis e defender com quatro
Essa pode ser a regra de ouro da eliminatória.
Leonardo Jardim não precisa abrir mão da agressividade. Mas precisa garantir que exista sempre uma estrutura atrás da bola.
Contra o Cruzeiro, o Flamengo mostrou o quanto pode ser dominante quando consegue recuperar a bola rapidamente.
O problema apareceu quando o controle diminuiu.
Na derrota por 2 a 1 para o próprio Cruzeiro pelo Brasileirão, o time teve um primeiro tempo dominante, mas perdeu intensidade na etapa final e permitiu a reação adversária.
Contra o Del Valle, esse tipo de oscilação pode ser fatal.
A altitude muda o plano de pressão
Esse ponto merece uma análise específica.
O primeiro jogo será no Equador.
E o Flamengo não pode jogar como se estivesse no Maracanã.
Uma pressão extremamente intensa durante os 90 minutos pode consumir energia muito rapidamente, principalmente jogando na altitude.
Por isso, a estratégia mais inteligente pode ser alternar momentos de pressão alta com períodos de bloco médio.
Pressionar quando houver gatilho, recuar quando necessário, controlar o ritmo, evitar corridas desnecessárias e atacar verticalmente quando recuperar.
Isso combina, inclusive, com alguns dos princípios de Leonardo Jardim: compactação, transição rápida e adaptação ao adversário.
O jogo de Quito não precisa ser ganho a qualquer custo
Esse é um ponto fundamental.
O Flamengo terá a vantagem de decidir no Maracanã.
Portanto, o objetivo da primeira partida não precisa ser dominar durante 90 minutos. Precisa ser sair vivo e, se possível, com vantagem.
O Del Valle terá a altitude a seu favor. O Flamengo terá o Maracanã no segundo jogo.
Isso muda a gestão da eliminatória.
E no Maracanã?
A história provavelmente será diferente. O Flamengo poderá pressionar mais alto, poderá aumentar o volume de posse.
Poderá utilizar os laterais mais agressivamente.
E terá uma torcida capaz de empurrar o time para o campo ofensivo.
Nesse cenário, o Del Valle provavelmente terá de defender mais baixo em determinados momentos.
E é justamente aí que Arrascaeta, Paquetá, Carrascal, Pedro e Samuel Lino podem fazer a diferença.
O plano ideal de Leonardo Jardim
Se fosse necessário resumir a estratégia do Flamengo em cinco princípios, eles seriam claros.
Primeiro: controlar Sornoza.
Segundo: impedir os cruzamentos.
Terceiro: atacar as costas dos laterais.
Quarto: não deixar González correr em campo aberto.
Quinto: alternar pressão e controle, principalmente em Quito.
O Flamengo não precisa transformar o confronto em uma batalha de intensidade.
Precisa transformá-lo em uma batalha de inteligência.
O duelo entre dois modelos
Existe uma diferença interessante entre as equipes.
O Independiente del Valle mostrou contra o Tolima que consegue ganhar mesmo quando não possui a bola.
O Flamengo de Leonardo Jardim vem mostrando que pode dominar através da posse, especialmente quando Jorginho e Pulgar conseguem controlar o meio-campo.
Isso cria uma disputa de estilos.
O Flamengo quer controlar o jogo.
O Del Valle quer controlar os momentos do jogo.
Quem conseguir impor sua lógica terá uma vantagem enorme.
O que pode decidir a classificação?
A resposta provavelmente estará nos detalhes: uma bola parada, um cruzamento, uma perda de bola no meio de campo, uma hesitação do Rossi.
É por isso que a classificação do Del Valle sobre o Tolima deve servir como material de estudo para Leonardo Jardim.
O confronto mostrou que os equatorianos não precisam de muitas oportunidades para machucar o adversário.
Mas também mostrou que, quando precisam defender por longos períodos, podem ser empurrados para trás.
O Flamengo tem o caminho — mas precisa executá-lo
O Independiente del Valle não é invencível.
Também não é um adversário que possa ser tratado como uma equipe menor apenas porque vem do Equador.
É uma equipe organizada, acostumada a competições continentais, líder do seu grupo, forte em casa e com jogadores capazes de decidir. O clube venceu o Grupo H com 13 pontos e marcou 11 gols naquela fase, seis deles de Carlos González.
Mas o Flamengo possui ferramentas para explorar suas vulnerabilidades.
A chave estará em não oferecer ao Del Valle o jogo que ele quer.
Se o Flamengo permitir transições, cruzamentos e passes de Sornoza para González, estará dando vida ao adversário.
Se conseguir controlar os corredores, proteger a região central, atacar as costas dos laterais e fazer a bola circular até abrir espaços, a história pode ser outra.
Leonardo Jardim não precisa reinventar o Flamengo.
Precisa fazer o time executar melhor aquilo que já mostrou contra o Cruzeiro e procurar ter mais eficiência quando a oportunidade aparecer.
O Del Valle eliminou o Tolima porque soube jogar os 180 minutos de acordo com aquilo que cada momento exigia.
Agora encontrará um adversário que tem mais qualidade individual, mais profundidade de elenco e a vantagem de decidir em casa.
Para chegar à semifinal, o Flamengo não precisará apenas ser melhor. Precisará ser mais inteligente nos dois jogos.
E essa será a grande batalha tática das quartas de final.
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