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29 de outubro, 202620:00
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Opinião

Quatro gols não apagam a memória, mas devolvem ao Flamengo o direito de respirar

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Por Miguel Sampaio

30 de outubro de 2026

89 acessos
O futebol tem dessas ironias que nem o mais experiente dos cronistas consegue antecipar. Depois de uma eliminação dolorosa na Libertadores, de cobranças sobre o treinador e de uma semana em que o ambiente rubro-negro parecia carregar o peso de uma temporada inteira, o Flamengo foi ao encontro do Vasco e voltou com quatro gols na bagagem. Uma goleada que muda o humor, devolve o sorriso e, sobretudo, permite ao torcedor respirar um pouco mais aliviado.

Mas respirar não é o mesmo que estar recuperado. A vitória por 4 a 1 tem valor enorme na disputa pelo Brasileirão, especialmente porque amplia a vantagem na liderança. Ainda assim, seria precipitado confundir uma noite de resposta com uma reconciliação definitiva entre equipe e torcida. O Flamengo precisava vencer, precisava convencer em alguma medida e precisava mostrar que ainda tinha forças para reagir. Conseguiu parte importante disso. As perguntas, porém, não desapareceram.

Pedro talvez tenha sido o personagem que melhor simbolizou essa noite. Dois gols depois de um período de jejum, presença de área e a sensação de que o centroavante voltou a encontrar o caminho que conhece tão bem. O futebol cobra seus atacantes com uma impaciência particular. Durante alguns jogos, cada oportunidade perdida vira argumento; quando a bola entra, a memória parece mudar de assunto. Nem uma coisa nem outra deveria ser definitiva. Pedro não deixou de ser um jogador importante nos dias sem gols, assim como a atuação desta quinta-feira não apaga todas as dúvidas que cercaram seu momento.

Samuel Lino também saiu do clássico com motivos para comemorar. Marcou duas vezes, participou diretamente da construção ofensiva e dividiu com Pedro o protagonismo de uma vitória que precisava de personagens. Para um jogador que vinha sendo cobrado por suas atuações, uma noite assim tem peso. Não resolve automaticamente a discussão sobre seu rendimento, mas oferece algo que o futebol exige de quem veste a camisa do Flamengo: resposta dentro de campo.

O placar, entretanto, conta uma história mais tranquila do que a partida em alguns momentos apresentou. Depois de abrir vantagem por 3 a 1, o Flamengo permitiu que o Vasco encontrasse espaços e criasse oportunidades. Rossi precisou trabalhar, e o adversário teve ocasiões para tornar o desfecho menos confortável. O quarto gol, construído em uma arrancada de Léo Ortiz e concluído por Samuel Lino no rebote, fechou a conta e deu dimensão maior à vitória. Não transformou, contudo, todos os minutos anteriores em demonstração de controle.


É justamente aí que a cobrança precisa encontrar seu lugar. Leonardo Jardim sai fortalecido pelo resultado, e seria injusto ignorar o que uma goleada em um clássico representa. Mas a vitória sobre o Vasco não apaga as escolhas que pesaram na eliminação da Libertadores. O treinador ganhou uma noite importante para recuperar confiança, não um salvo-conduto para o restante da temporada. O trabalho continuará sendo julgado pelo que a equipe apresentar nos jogos decisivos que ainda tem pela frente.

O Flamengo sempre conviveu com essa relação intensa entre memória e exigência. A lembrança dos grandes times, de Zico e de tantas tardes e noites no Maracanã não serve apenas para alimentar saudade. Também ajuda a explicar por que o torcedor cobra tanto de uma equipe que carrega uma história de protagonismo. Não se exige perfeição a cada partida, mas há uma identidade que não pode ser tratada como detalhe. Ganhar é indispensável; reconhecer o peso da camisa também faz parte do trabalho.

Com 73 pontos, três a mais que o Palmeiras, o Flamengo sai da 33ª rodada em uma posição mais confortável na disputa pelo título. Ainda restam cinco partidas, e o confronto direto em São Paulo continua no horizonte como um dos capítulos mais importantes dessa reta final. A vantagem existe, mas não autoriza distrações. O campeonato não será decidido pela lembrança da goleada sobre o Vasco, e sim pela capacidade de repetir a seriedade e a eficiência demonstradas em campo.

Por enquanto, o torcedor tem o direito de comemorar. Pedro voltou a marcar, Samuel Lino encontrou uma noite de afirmação, o Flamengo venceu um clássico por larga margem e abriu vantagem na liderança. Depois de dias difíceis, não é pouco. Só convém guardar a diferença entre alívio e chegada. O Flamengo recuperou o fôlego, mas ainda precisa provar que consegue transformar uma boa noite em confiança duradoura. Quatro gols devolvem o sorriso; o título, se vier, exigirá muito mais do que isso.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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