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18 de outubro, 202618:30
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Opinião

O Flamengo trouxe um empate na mala, mas deixou futebol pelo caminho

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Por Miguel Sampaio

16 de outubro de 2026

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Existem empates que valem mais do que parecem. E empates, que, justamente por valerem tanto, correm o risco de esconder aquilo que não funcionou. O Flamengo voltou de La Plata com o placar zerado, a vaga na decisão da Libertadores aberta e a sensação de que sobreviveu a uma visita que exigia mais do que conseguiu oferecer. Na bagagem, trouxe um resultado. Ficou pelo caminho, porém, uma parte importante do futebol que se espera de um time com suas ambições.

O velho caderno de anotações deste cronista já viu muita semifinal de Libertadores. Vi times grandes atravessarem noites difíceis, vi favoritos descobrirem que camisa pesada não impede perna de tremer e vi a palavra sofrimento ganhar, no futebol, uma dignidade que poucas outras atividades humanas conseguem explicar. A Libertadores tem dessas coisas. Mas também aprendi que nem todo sofrimento precisa ser celebrado como virtude, principalmente quando uma equipe tem condições de jogar melhor do que jogou.

O Flamengo não foi a La Plata para um passeio. Ninguém seria ingênuo a esse ponto. O Estudiantes conhece o próprio estádio, conhece o peso da competição e sabe transformar cada disputa em uma pequena batalha. O ambiente era hostil, o contato físico era constante e o jogo se desenrolava em um ritmo que pouco favorecia os jogadores rubro-negros mais técnicos. Tudo isso estava no roteiro. O que não deveria estar, ao menos na mesma proporção, era a dificuldade de transformar a posse de bola em ameaça real.

Porque uma coisa é encontrar um adversário que dificulta o jogo. Outra é passar a partida inteira procurando uma maneira de jogar sem conseguir encontrá-la.

O Flamengo terminou os noventa minutos sem acertar uma finalização na direção do gol de Fernando Muslera. Foram cinco tentativas, todas para fora. É um dado que não precisa de adjetivos, embora mereça uma boa dose de preocupação. Não se exige que o time transforme cada ataque em gol, nem que domine todos os minutos de uma semifinal continental. Exige-se, isso sim, que consiga produzir alguma ameaça consistente quando tem a bola e jogadores capazes de decidir uma partida.

Não foi o que aconteceu.

E seria injusto ignorar o outro lado da história. O Estudiantes também não encontrou a facilidade que gostaria para transformar sua pressão em vantagem. Teve mais finalizações, chegou a assustar e encontrou em Léo Pereira um obstáculo que talvez ainda estivesse atravessado na memória dos torcedores argentinos quando o árbitro encerrou a partida. Naquele lance em que Palacios apareceu para finalizar, o zagueiro rubro-negro salvou praticamente em cima da linha. Foi uma intervenção de quem compreendeu, naquele instante, que havia muito mais em jogo do que uma bola atravessando a área.

Há defensores que passam uma partida inteira sem aparecer nas fotografias. Naquela noite, Léo Pereira precisou aparecer justamente onde o Flamengo mais precisava dele.

Agustín Rossi também cumpriu sua parte, e a defesa rubro-negra, apesar dos sustos, conseguiu evitar que a pressão argentina se convertesse em um prejuízo concreto. É preciso reconhecer esse mérito. Um time que não joga bem ainda pode demonstrar capacidade de resistência, e o Flamengo teve momentos em que precisou se agarrar a essa qualidade. A questão não é desmerecer o que funcionou. É não permitir que o que funcionou apague o restante.

O resultado foi bom. A atuação, não.


Talvez seja essa a distinção mais importante que a noite de La Plata nos deixou. Em uma eliminatória disputada em dois jogos, o placar do primeiro encontro não precisa contar toda a história. O Flamengo saiu sem sofrer gols e terá o Maracanã como cenário da decisão. Isso tem valor, e não é pouco. Mas seria um erro transformar a vantagem de decidir em casa em uma espécie de absolvição antecipada.

O futebol brasileiro conhece bem esse expediente: quando o resultado ajuda, a discussão sobre o desempenho costuma ser empurrada para depois. Quando o resultado castiga, todos descobrem, de repente, os problemas que já estavam diante dos olhos. O placar tem uma força curiosa. Às vezes, ilumina. Em outras, faz sombra.

A arbitragem também entrou nessa conta. Juan Gabriel Benítez permitiu um nível de contato físico que marcou a partida, com agarrões e disputas em que os jogadores do Estudiantes pareciam encontrar espaço para interromper a progressão rubro-negra. Leonardo Jardim reclamou dos critérios e apontou a permissividade do árbitro diante da intensidade dos argentinos. Não é necessário imaginar conspirações para reconhecer que o critério de uma arbitragem interfere na maneira como uma partida se desenvolve.

Quando o contato é tolerado de forma reiterada, o time que pretende construir jogadas precisa encontrar soluções para sobreviver à pressão. E o adversário percebe rapidamente até onde pode ir. O problema não está em disputar a bola com força, algo perfeitamente legítimo, mas em permitir que a fronteira entre o duelo físico e a infração perca nitidez durante o jogo.

Ainda assim, convém separar as coisas. A arbitragem pode ter dificultado o trabalho do Flamengo, mas não explica sozinha a ausência de finalizações certas. Uma equipe que pretende chegar à final da Libertadores precisa encontrar maneiras de responder também às condições adversas. O apito não pode ser a única explicação para aquilo que os pés não conseguiram executar.

Jardim tem razão ao lembrar que uma semifinal não se resume a uma noite. O treinador também tem diante de si a responsabilidade de fazer o Flamengo produzir mais na partida decisiva. A prudência pode ser necessária em determinados momentos, e saber sofrer faz parte da história de qualquer campeão. Mas existe uma diferença entre administrar o risco e passar tempo demais sem conseguir impor o próprio jogo.

O Flamengo não precisa ser romântico, como disse o treinador ao falar sobre a exigência de ser competitivo. Concordo. A Libertadores não distribui medalhas para quem joga bonito e perde. Tampouco exige que uma equipe se lance ao ataque como se o relógio não existisse. Mas há uma distância considerável entre não ser romântico e aceitar que a própria capacidade ofensiva desapareça por noventa minutos.

A inteligência de uma equipe também se mede pela maneira como ela reage quando o plano inicial não funciona.

Lucas Paquetá considerou inteligente a atuação rubro-negra, destacando a capacidade de sofrer e a importância de decidir no Rio. É uma leitura compreensível para quem olha a eliminatória como um conjunto de 180 minutos. O Flamengo evitou a derrota, preservou suas possibilidades e levou a definição para um estádio em que conhece muito bem a força de sua torcida. Mas a palavra inteligência não deveria encerrar a conversa. Deveria abrir a próxima pergunta: o que precisa mudar para que o segundo jogo seja diferente?

Porque o Maracanã não entra em campo sozinho.

A torcida pode empurrar, incendiar o ambiente, transformar cada dividida em um acontecimento e fazer o adversário sentir o peso de uma arquibancada que conhece a história que carrega. O estádio pode oferecer ao Flamengo uma vantagem emocional importante. Mas ninguém deveria confundir esse apoio com uma solução automática para as dificuldades vistas na Argentina. A arquibancada pode dar coragem; não pode finalizar no gol de Muslera.


E é justamente por isso que o empate merece ser recebido com serenidade, não com euforia. O Flamengo continua vivo, tem a decisão em casa e depende de uma vitória simples para alcançar a final. Não há motivo para transformar uma noite difícil em tragédia. Tampouco há motivo para fingir que tudo correu conforme o desejado.

O torcedor que acompanhou a partida sabe que o alívio do apito final veio acompanhado de outra sensação, menos confortável: a de que o time precisará mostrar mais. Não necessariamente correr mais, bater mais ou entrar em campo tomado por uma ansiedade que pode trabalhar contra ele. Precisará jogar melhor. Encontrar os espaços, construir as oportunidades e dar à sua superioridade técnica uma expressão que não apareceu em La Plata.

Na próxima quinta-feira, o Maracanã estará diante de outra noite de Libertadores. O Flamengo terá a oportunidade de transformar o empate em ponto de partida para uma atuação à altura da decisão. A classificação não está garantida, mas está ao alcance. E talvez essa seja a melhor notícia que o resultado argentino poderia oferecer: há tempo para corrigir, há casa para decidir e há uma torcida pronta para fazer sua parte.

No fim das contas, o futebol tem uma memória seletiva. Quando a bola rola novamente e a classificação vem, muita gente passa a tratar a dificuldade anterior como apenas mais um capítulo da campanha. Quando ela não vem, os sinais ignorados voltam à superfície com uma crueldade que só o futebol conhece.

Eu já vi esse filme mais de uma vez. Por isso, não vou condenar o Flamengo por voltar de La Plata sem uma vitória. Nem vou aplaudir uma atuação que deixou tanto a desejar só porque o placar preservou as esperanças.

O empate foi um bom negócio. O futebol apresentado, nem tanto.

Agora, cabe ao Flamengo fazer do Maracanã mais do que o endereço da partida de volta. Cabe transformar o estádio em palco de uma resposta. Porque a Libertadores costuma perdoar uma noite ruim, mas raramente oferece muitas oportunidades para que um time repita os próprios erros.

E o Flamengo, convenhamos, tem futebol e elenco para não precisar viver de alívio.

Sobre Miguel Sampaio

Miguel Sampaio é jornalista e cronista esportivo carioca, com mais de quatro décadas acompanhando o futebol de perto. Aos 60 anos, carrega a memória de diferentes gerações do esporte, de Zico e do Maracanã de outras épocas ao futebol moderno. Na coluna “Depois do Apito”, combina experiência, opinião e olhar crítico para analisar o Flamengo e o futebol brasileiro para além do resultado.

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